Minhas experiências em Copenhague, Servilha e Barcelona

É 1983 e estou em Copenhague. O vento é tão gelado e sopra tão forte que estou caminhando de lado, como andam os caranguejos do Alagamar, em Macau. Não existe agasalho capaz de impedir a fúria do vento. Vou com um amigo ver no famoso Tivoli Parque, a atração do cinerama: o velho trem descarrilhado a uma velocidade estonteante.

Ao fim daquele dia, estamos caminhando no centro de Copenhague. Tento tirar fotografia de um dinamarquês com aquele chapéu de chifres, à moda viking e, de repente, o sujeito começa a correr atrás de mim com uma pequena machadinha. E aí, diante do insólito, as pernas são o de que mais necessito. Corro uma quadra inteira. E desisto de vez de fotografar qualquer um com traje típico da Dinamarca.

Servilha

Algumas cidades podem ser mais bem conhecidas pelo paladar. Nada como degustar uma paella em Sevilha ou Valência. Essas cidades carregam consigo os aromas únicos e os sabores açoitados por mares e tempestades. Uma paella é sempre uma ocasião festiva. Sentimo-nos como que participando de algum ritual da antiga Roma, em plena Península Ibérica. Algo de sagrado vai para o fogo quando se planeja ter uma paella legítima. Os rostos brilham, os olhos desatam a falar e a História passa a ser degustada.

Barcelona

Moderninha rima com Barcelona. É como se em um dicionário imaginário um verbete seguisse, imediatamente, o outro. Nada de cenários futuristas. Arte bruta pelas ruas, colada em paredes, com torres pontiagudas clamando algo ao céu. E o Parque Guell. È a inacabada Catedral da Sagrada Família, de Gaudí, que me informa que a modernidade pode ser suave e terna, pode ter inclusive coerência e harmonia, e pode também dispensar todo um tratado com explicações para esta ou aquela pincelada ou esta e aquela linha traçada no vazio da existência de uma metrópole.

Barcelona é moderna em sua linguagem, é provinciana em seu estilo cosmopolita, é uma cidade acolhedora como nenhuma outra. Sua juventude parece ter saído do nada, radiante e festiva, descompromissada e despojada de qualquer superioridade europeia.