Dirigindo protótipos: uma experiência única

Em minha vida profissional, coleciono várias listas de coisas que já fiz, como visitar fábricas e pistas de testes e dirigir em autódromos ou na companhia de pilotos consagrados. Mas uma das listas de que mais gosto é a dos protótipos que avaliei, carros que por diferentes motivos não chegaram a ser produzidos em escala comercial.

Entre esses filhos únicos há veículos experimentais de universidades, projetos que não vingaram por diferentes motivos, carros adaptados ou produzidos artesanalmente e carros-conceito, modelos que muitas vezes são construídos apenas para apresentar novas propostas de estilo e tecnologia, em eventos e salões.

O mais curioso dessa categoria, sem dúvida, foi o FEI X-1, o primeiro protótipo construído pelos alunos do curso de engenharia mecânica da FEI (sigla que então significava Faculdade de Engenharia Industrial, hoje Fundação Educacional Inaciana), em 1968.

“Considerado o veículo mais revolucionário do Salão do Automóvel daquele ano, o X-1 foi apresentado como um carro ““ anfíbio de quatro rodas e propulsão aerodinâmica para andar sobre rodas e sobre colchão de ar”. OX-1 tinha a carroceria de madeira e em forma de cunha e uma grande hélice na parte traseira, como um aerobarco. No asfalto, a partir de 60 km/h, a dianteira se levantava e ele passava a ser impulsionado não só pelas rodas motrizes traseiras como também pela hélice.

Dirigir o X-1 foi uma experiência diferente de qualquer outra que tive sobre quatro rodas. O protótipo tinha pedais e alavanca de cambio, como os automóveis comuns. No lugar do volante, porém, havia um manche. Encontrei certa dificuldade para me adaptar à relação manche/roda, que é bastante direta. Para cada centímetro de deslocamento do manche, tinha a impressão de que as rodas varriam algumas dezenas de graus. No início, o carro fazia as curvas mais fechadas do que eu pretendia. Contudo, depois me adaptei.

A pilotagem ocorreu em 2007, no estacionamento da faculdade, que fica em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. A unidade utilizada era uma réplica do modelo, mas em 1968 o X-1 verdadeiro foi rodando para a apresentação no Salão do Automóvel.

Dirigido por seu projetista, o professor Rigoberto Soler, o protótipo foi de São Bernardo até o Parque do Ibirapuera, em São Paulo. No percurso, apenas uma ocorrência. Logo na saída, o cabo do acelerador se rompeu, forçando o motorista a parar. Ao ver o protótipo, um morador da região, sem apesar do cavalo, perguntou assustado se Soler não havia se machucado “com a queda do avião”.

Outro carro que incluo nessa categoria de raridades é o Rossin – Ber-tin Vorax. Projetado pelo designer brasileiro Fharys Rossin, o Vorax seria o primeiro superesportivo nacional, se chegasse a ser produzido. Construído com chassi tubular de alumínio e carroceria de fibra de carbono, ele era equipado com motor BMW V10.

Eu fui o primeiro (e, até onde sei, único) jornalista a dirigir o Vorax. E isso aconteceu com a primeira unidade funcional do veículo, montada para validar o desenvolvimento, que Ocorrera de modo virtual até aquela fase. Acompanhei parte da montagem e participei dos primeiros testes de campo do veículo, feitos no litoral de Santa Catarina (SC), onde a fábrica da Rossin-Bertin seria construída.

Foi muito interessante conferir de perto essas fases de desenvolvimento do projeto. Já como carro pronto, a impressão que tive ao volante foi muito boa. Ele se mostrou rápido, estável e obediente, além de muito bonito. 


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